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"De Tentar em Tentar", por Julio Cesar | Classe Literária



Há um dia de se pensar em um dia. Ensolarado, quente, terno das coisas que compõem o natural. Pássaros no céu a voar, árvores vivas regendo sua orquestra de folhas, o sol, imponente e impenetrável aos olhos, que banha com seu calor todo esse cenário.

Ao final desse dia, um homem, ao caminhar por um lugar indefinível que acaba por deparar-se com algo em si, bem na sua frente.

Logo após, correra desesperadamente para a árvore mais próxima, e em um de seus galhos se segurou, encolhendo-se em seu próprio entorno ao máximo que pudera. Pensara também em tudo quanto era verde até que sua cabeça doesse e ironicamente só ficasse mais distante da cor secundária. Quebrara o galho da árvore na tentativa de ser uma folha.

O chão não lhe tomou muito tempo, ergueu-se e após ter-se colocado na ponta dos pés, pulara o mais alto que conseguira. Porém pouco se afastava do chão e ao balançar os braços, não fazia nada além de contribuir para o suor.

Olhava para o céu azul e dele sentia saudade, como quem revê um amigo antigo mas logo tem de despedir-se. Tentou ansiar o vôo assim como um ovo chocado no ninho, tentou querer alcançar as nuvens mais que todos, mas não saíra do chão. Quebrara as pernas, na tentativa de ser um pássaro.

Depois se deitou, e permitiu que a luz o cegasse pelo claro que vem do sol, olhara tão compenetrado para a estrela, que seus olhos secaram até às córneas e já não conseguira perceber a diferença entre abrir e fechar as pupilas. Tentara de todo coração enxergar o centro do astro, ir além do clarão que se tem quando se eleva os olhos a Apollo, conseguir ver talvez o primeiro raio que chegaria em breve até seu colo. Mas não conseguiu. Cegara os olhos, na tentativa de ver o sol.

Depois parou, sentiu o solo em contato com seu corpo e fez do húmus e da grama seu conforto. Fora dos cinco dedos da palma a terra. Abrindo assim com as duas mãos em movimentos diferentes e paralelos para que em torno de si, conseguisse abrir a boca do chão e nela descansar. Tentara ressurgir, se concertar. Ser semente, estar onde se está para ser outro, ser novo. Cobrira-se de tudo que havia levantado a unhas sujas e o que restava embaixo delas, da ponta dos pés até a ponta do nariz queimado. Totalmente coberto.

Morrera sufocado, na tentativa de renascer.

Quisera eu pensar em um dia em que o homem não encontrara aquele espelho em seu caminho.


Desenho feito por Sabrina Marques para o Classe Literária.


 
 
 

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© 2021 por Guilherme Ambar & Julio Cesar. 

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